Possível auto-retrato de da Vinci. Fonte: Wikipedia.Anatomista, naturalista, inventor, engenheiro, desenhista, pintor, escultor, escritor. É possível afirmar que poucos personagens reúnem tantos atributos ligados à sabedoria quanto Leonardo da Vinci. Leonardo, podemos brincar, são muitos Leonardos. Ele, aliás, é a própria encarnação do que o dicionário define como “polímata” – um conhecedor profundo de muitas áreas. O personagem símbolo do Renascimento, etapa da História ocidental marcada pelo retorno de uma visão mais ampla e livre para o mundo, o passado e a natureza. E, certamente, um personagem inspirador para uma educação que olha ao seu redor com encantamento, em uma perspectiva transversal focada nos projetos e no fazer.
Se, em sua época, Leonardo foi reconhecido por seus pares e por quem detinha o poder (a Igreja, os nobres das cidades-estado italianas e reis como o da França), nos últimos dois séculos ele se tornou um verdadeiro “astro pop”, visto, lido e relido por escritores e cineastas. E teve seus trabalhos reproduzidos muitas e muitas vezes, em muitas mídias.
Estudo de Leonardo para a “Santa Ceia”. Fonte: Wikipedia.Neste artigo especial “davíncico”, vamos tratar dos acervos – em especial, os digitais – de Leonardo da Vinci, para que você possa acessar e desfrutar do talento desta inigualável figura. Ajeite-se no seu ornitóptero e vamos voar!
Como começou o sucesso de Leonardo?
Como observamos, Leonardo já era um artista reconhecido desde o século XV (e no início do XVI), período em que viveu. No entanto, ele só “caiu nas graças do povo” a partir da segunda metade do século XVIII, quando Estados que emergiam da “Era das Revoluções” começaram a transformar as coleções reais artísticas e científicas em museus. Foi quando as pessoas “comuns” puderam ver de perto suas obras.
No caso do nosso personagem, seu status mudou graças ao furto daquela que viria a se tornar a obra de arte mais célebre do mundo. Em 21 de agosto de 1911, o italiano Vincenzo Peruggia (foto abaixo) aproveitou-se de sua condição de prestador de serviços do museu do Louvre, tirou a tela da “Mona Lisa” da moldura e desapareceu. A obra – que teria sido escolhida não por ser de Leonardo da Vinci, mas por suas dimensões reduzidas (77 x 53 cm), que facilitariam a subtração –, sumiu e virou manchete.
Vicenzo Peruggia. Fonte: Wikipedia.Os jornais, então, estavam se popularizando, assim como a própria literatura policial, e a cobertura do furto foi um enorme sucesso. O crime, aliás, só foi resolvido dois anos depois, quando, já em terras italianas, o autor tentou vender a pintura. A volta da “Mona Lisa” ao Louvre foi um evento grandioso. Nascia, então, a mais “pop” das pinturas, que somava qualidade artística única a uma história fantástica.
Leonardo, porém, é a “Mona Lisa” e muito mais. A partir de agora, vamos descobrir onde “se esconde” – ou melhor, onde está disponível em formato digital – todo esse acervo.
O acervo de Leonardo
Ao examinar a obra do célebre artista italiano, poderíamos dividi-la em quatro grandes campos. Essa divisão, vale reforçar, é arbitrária, ou seja, é uma escolha entre muitas outras possíveis – mas, dá conta do recado.
É possível pensar em um Leonardo (1) pintor, (2) projetista, (3) investigador da natureza e anatomista, e também (4) escritor.
Leonardo pintor
Sim, foi a “Mona Lisa” a grande responsável pela identificação imediata de Leonardo da Vinci como pintor. E, é claro, suas obras são, todas, obras-primas. Porém, o fato é que Leonardo produziu menos pinturas do que poderíamos imaginar à primeira vista. Os especialistas reconhecem apenas entre 15 e 17 obras de sua autoria; destas, oito são consideradas universalmente “da mão do pintor”, enquanto as restantes permanecem em debate pelos especialistas. Não que sejam falsas: elas podem ser oriundas do ateliê dele (de autoria de algum de seus aprendizes) ou, então, cópias feitas na época sem intenção criminosa. Em tempo: no século XV, quando viveu, não era comum que os artistas assinassem seus trabalhos – a assinatura era o próprio traço, enfim.
“Mona Lisa”, pintada entre 1503 e 1506. Fonte: Wikipedia.São consideradas “100% Leonardo” as seguintes obras: “Mona Lisa”, “A Última Ceia”, “Virgem das Rochas” (do Louvre), “Virgem e o Menino com Santa Ana”, “São João Batista”, “Adoração dos Magos” e “São Jerônimo no Deserto”. E são aceitas pela maioria como de autoria do pintor italiano as telas “Sala delle Asse”, “Anunciação”, “Ginevra de’ Benci”, “Madona Benois”, “Dama com Arminho” (foto), “La Belle Ferronnière” e “Retrato de Músico”. Uma última peça, “Salvator Mundi” é vista com suspeita por muitos especialistas e aceita por outros tantos.
E que países abrigam essas pinturas? Cinco delas estão na França; outras cinco, na Itália; Vaitcano, Polônia, Rússia e Estados Unidos detêm, cada um, uma peça; e uma delas – justamente, “Salvator Mundi”, está em destino incerto porque pertence a um colecionador particular (provavelmente, está guardada em um banco na Suíça).
Você pode ver cada uma dessas peças em seus museus – tomara que vá! No entanto, elas também estão disponíveis na internet, digitalizadas. E podem ser encontradas nesses endereços:
“Mona Lisa”, Museu do Louvre
“A Última Ceia”, Museo del Cenacolo Vinciano
“Virgem das Rochas”, Museu do Louvre
“Virgem e o Menino com Santa Ana”, Museu do Louvre
“São João Batista”, Museu do Louvre
“Adoração dos Magos”, Galleria degli Uffizi
“Anunciação”, Galleria degli Uffizi
“São Jerônimo no Deserto”, Museus Vaticanos
“Sala delle Asse”, Castelo Sforzesco
“Ginevra de’ Benci”, National Gallery of Art
“Madona Benois”, Museu Hermitage
“Dama com Arminho”, Museu Czartoryski
“La Belle Ferronnière”, Museu do Louvre
“Retrato de Músico”, Pinacoteca Ambrosiana
“Salvator Mundi”, coleção particular
Leonardo projetista
Como bom “sabe-tudo” que era – um gênio –, Leonardo também colocava o cérebro em ação para projetos de engenharia. Ele, aliás, era um talentoso projetista militar, em uma época cheia de demanda por armas arrasadoras, defesas incríveis e mais.
Entre os seus projetos militares mais célebres – que, até onde se sabe, não saíram do papel – estão um tanque blindado, uma besta gigante, um carro com foices para cortar tudo que cruzasse pelo caminho e um navio com esporão móvel. Ele também desenhou fortificações inovadoras, que se baseavam em ângulos para reduzir o impacto das balas de canhão.
Para além da guerra, ele também desenhou projetos “civis” como pontes móveis – o projeto da “Ponte auto-suportada de Leonardo” é um clássico reproduzido em todo o mundo –, uma máquina voadora de asas móveis (o famoso “ornitóptero”), um paraquedas, o chamado “parafuso aéreo”, baseado no princípio de funcionamento da hélice, e uma máquina de mergulho.
O “ornitóptero”, máquina de voar projetada por da Vinci. Fonte: Wikipedia.Mas, onde encontrar esses projetos? E até como saber se eles eram realmente efetivos? O ornitóptero, por exemplo, poderia voar, não fosse pela ausência de motores suficientemente rápidos para sustentar o voo (este, aliás, é um problema com as asas móveis, como já vimos em um artigo anterior).
Muitos projetos de engenharia de Leonardo foram digitalizados por instituições de várias partes do mundo. Uma das mais célebres é a “Leonardotheka” do Museo Galileo, de Florença. Lá, é possível encontrar centenas de projetos davincianos – dentre eles, 50 de engenharia militar, 200 de engenharia civil e mecânica, 30 relacionados ao voo, 100 de engenharia hidráulica e 50 de arquitetura e urbanismo.
Leonardo investigador da natureza e anatomista
É difícil afirmar uma faceta mais fascinante de Leonardo. Afinal, tudo o que ele fez era genial, mesmo se não funcionasse! Isso porque, para além da forma estava o princípio, a regra que nasce da observação, e nisto o polímata italiano era um craque. Mas, se pudéssemos escolher um aspecto de Leonardo mais instigante, seria seu olhar para a natureza.
Um olhar que, em certa medida, reproduzia o dos filósofos naturalistas gregos e ainda desafiava as regras rígidas impostas pela Igreja naquela virada de Idade Média para Idade Moderna.
Pense, por exemplo, em seus cerca de 750 desenhos anatômicos, que reproduziam à perfeição o corpo e os órgãos humanos e ainda intuíam seu funcionamento. Leonardo examinou e descreveu, por exemplo, o sistema músculo-esquelético, o coração, o crânio e o cérebro (e também o feto, os órgãos genitais e mais). Para isso, driblou as regras da religião – examinando e dissecando cadáveres –, em nome do conhecimento. As cerca de 30 dissecações foram feitas entre 1509 e 1513 em companhia de Marcantonio dela Torre, professor da universidade de Pádua.
Estudo dos ossos do braço” (cerca de 1510). Fonte: Wikipedia.Ainda nessa mirada para a natureza, ele também enxergou coisas como o voo dos pássaros, o padrão matemático das folhas de uma planta e até o fluxo da água em uma correnteza. E, com o chamado “Homem Vitruviano” (referência a Marco Vitruvio Polião, arquiteto romano do século I), demonstrou que o ser humano pode ser uma medida para o mundo.
Mas, onde encontrar as obras do Leonardo naturalista e anatomista? O grande repositório de obras está no Google Arts and Culture, que reúne uma enormidade de dados sobre Leonardo – inclusive, seus códices naturalistas e de anatomia.
Leonardo escritor
Quando pensamos nos escritos de Leonardo, a imagem que salta aos olhos é a da “escrita espelhada” que ele, canhoteiro, usava em todos os seus códices. Essa forma de escrita tão peculiar – para lê-la, era necessário colocar o papel diante de um espelho – não apenas prevenia borrões de tinta pelo arrasto da mão, como também era um elemento de preservação da informação.
Mais do que a forma, porém, importava o conteúdo. Não apenas as geniais anotações técnicas e de observação dos fenômenos, mas histórias curtas de fundo moral – em sua maioria, fábulas, que Leonardo também escreveu. Essas histórias, aliás, talvez sejam a parte menos conhecida e menos disponível de sua obra, ao menos no universo digital. Porém, é possível acessá-las em português, na Biblioteca Digital da Unesp – para isto, é preciso fazer uma inscrição gratuita.
Conclusão: Leonardo, educador
A extensão dos conteúdos de Leonardo da Vinci disponíveis na internet (e não contamos, aqui, tudo o que se produziu a respeito dele) mostra seu enorme valor. Leonardo é pop. Mais do que isso, ele espelha o que deve ser a própria ciência: curiosa, investigativa, imaginativa, criadora, protagonista, intencionada, desafiadora de limites. E também, é claro, espelha a arte: simplesmente inigualável.
Todos, elementos almejados e desejáveis pela educação, que inspiram professores e estudantes. Portanto, inspire-se!
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